Nos últimos dias, trabalhando no desenvolvimento de uma plataforma para avaliação de riscos psicossociais, algo começou a me chamar bastante atenção.
Quando falamos em saúde mental no trabalho, é natural pensarmos primeiro na pessoa: ansiedade, exaustão, estresse, irritabilidade, dificuldade para dormir, burnout.
Mas existe uma pergunta anterior que talvez seja ainda mais importante:
O que, na forma como a empresa organiza o trabalho, pode estar contribuindo para isso?
- Carga mal distribuída.
- Baixa autonomia.
- Decisões excessivamente centralizadas.
- Falta de clareza sobre responsabilidades.
- Processos confusos.
- Retrabalho.
- Comunicação deficiente.
- Excesso de aprovações.
- Atividades que exigem atenção constante sem mecanismos adequados de apoio.
Tudo isso pode fazer parte dos chamados fatores de risco relacionados à Gestão Organizacional.
E aqui está uma reflexão importante:
identificar o risco é apenas o começo.
Se uma avaliação aponta um problema relacionado à autonomia, por exemplo, não basta escrever no relatório:
“Recomenda-se ampliar a influência dos colaboradores sobre suas atividades.”
A empresa precisa descobrir onde essa falta de autonomia acontece.
- Em qual setor?
- Em qual atividade?
- Em qual processo?
- Quem concentra as decisões?
- Quais aprovações poderiam ser eliminadas?
- O que poderia ser padronizado?
- O que poderia ser automatizado?
É nesse ponto que gestão de processos, saúde organizacional e Inteligência Artificial começam a se encontrar.
Imagine uma IA capaz de partir de um risco identificado e ajudar a empresa a investigar suas possíveis causas, mapear o processo relacionado, encontrar gargalos, sugerir melhorias e transformar tudo isso em um plano de ação.
Algo como:
Risco → Fator → Causa → Processo → Intervenção → Responsável → Evidência → Reavaliação.
A IA não substituiria o psicólogo, o profissional de SST, o RH ou o gestor.
Ela poderia conectar o diagnóstico à execução.
E existe uma diferença enorme entre uma empresa saber que possui determinado risco e conseguir demonstrar:
“Identificamos. Investigamos. Intervimos. Acompanhamos. Reavaliamos.”
É justamente nessa direção que tenho trabalhado ao conectar algumas das tecnologias que desenvolvemos.
De um lado, a avaliação e inteligência sobre riscos psicossociais.
Do outro, nossa experiência com IA, gestão e mapeamento de processos.
Porque talvez uma das aplicações mais interessantes da Inteligência Artificial nas empresas não seja simplesmente produzir mais.
Talvez seja nos ajudar a entender como estamos trabalhando, encontrar aquilo que precisa mudar e construir organizações mais eficientes e, principalmente, mais saudáveis.
Tecnologia não deveria apenas acelerar processos ruins.
Deveria nos ajudar a construir processos melhores.
